
Porque os insetos de hábitos noturnos se atraem tanto pela luz das lâmpadas e não se atraem com a mesma empolgação pela luz do sol?
Tantos mistérios são guardados pelo fenômeno da vida, que me sinto tão privilegiado quanto um elefante e sua vasta capacidade de memorização quando percebo que, não só em mim, mas em (quase) todos os seres humanos, há essa fundamental curiosidade pelos mistérios do fenômeno da vida, que acaba por nos levar a elaborar desde simples questões corriqueiras até elaborados questionamentos filosóficos e existenciais.
Adoro pensar por exemplo, nos segredos e potências que guardam o nosso infinito manancial de emoções. Porque seres humanos de hábitos tipicamente solitários, são incapazes de experimentar a genuína felicidade, senão, quando compartilhando com outro ser humano? De onde exatamente vem esse imenso desejo de expressar-se, de compartilhar subjetividades, de reforçar e recriar noções de identidade somente possíveis diante das diferenças que apenas a pluralidade do coletivo, em simbióticos intercâmbios culturais, consegue genuinamente atingir sua realização?
Muitas vezes gostaria de ser mais simples nesse universo de tantas e tamanhas complexidades. Será tudo tão densamente complexo quanto me parecem ser as nossas emoções, ou será que por desconhecermo-las adequadamente que projetamos portanto esta complexidade toda no universo que nos cercam os sentidos?
Estou tão feliz. Isso deveria-me ser a coisa mais simples e óbvia do mundo, já que estou assertivamente compartilhando experiências em comunidade. Mas algo insiste em não se dar por encerrado ao final de um intenso dia de muita alegria e realização espiritual, e uma série de questões que levam à outras e mais outras questões, como num dominó de progressões geométricas, não me permite sossegar meus pensamentos. E o entusiasmo inicial então se confunde com uma euforia intelectual, e assim a serenidade se dissipa, levando com ela aquela aparentemente infinita sensação de felicidade da comunhão e nutrição amorosa na qual estou imergido.
Afinal de contas, a luz em demasiada abundância, em certo ponto, nos impede de enxergar claramente, podendo até cegar-nos mais que a própria escuridão. Porque esses insetos insistem em debaterem-se nas lâmpadas até a exaustão, quando existe um imenso e adequadamente distante sol divinamente prontificado à iluminação todas as manhãs?
É exatamente assim como esses insetos que eu me sinto quando chega a noite. E por mais que eu saiba que a manhã já vem, enérgico de expectativas, tento me iluminar com essas idéias até me sentir completamente cego. Mas tenho certeza que a vida, seja lá o que for este incrível fenômeno, sabe exatamente o que faz, e por trás de tantos mistérios existe um exato propósito para a existência de cada um de nós.
imagem de Marina Papi