
um breve prólogo acidental:
"...e de repente meus pés pousaram lentamente por sobre aquela melodia, podia deslizar naquele som, sentia o mar infiltrando-se na areia, era como se meus pés por alguns instantes fossem toda uma praia, não pude evitar toda aquela vitalidade e paisagens surgirem irradiando essa beleza, que de tão grande, equilibrou-se homeostaticamente numa melancolia doce, só pra construir no imediato espanto aquela saudade óbvia que então nascia, uma saudade incomensurável, uma dor de alegria que é incabível, uma lenta epifania, a constatação presente do que é inesquecível..."
não sei desde quando
mas sei que enquanto ando
ouço esse soluço, este enigma e esse encanto
que explode em cores no mundo
mas que vem bem la do fundo
do desconhecido habitando em mim...
não sei ainda o exacto, não por enquanto
onde vou só me sei mesmo amando
mesmo seguindo rastros deste som de oceano
que ecoa num mistério profundo
e também é meu mais íntimo mundo
minha busca e meu enigma particular e sem fim...
águas que vêm, e águas que vão...
e essa música e essa dança
o estranho ruído, chuva de verão
águas que sentem, águas que são
e sensações me percorrendo, infância
mar tempestuoso que é a emoção
mas são desertos que atravesso, eu não me engano
medo, mistério e mar sem que eu perceba vão se misturando
e confiante eu ando, eu canto e como eu ando
onde sei que indo sempre estou, eu sou o admirando
e eu não sei mesmo o que é que mesmo livre .... ....
e eu não sei mesmo quem sou que mesmo livre ... ...
e eu nem sei se sei onde estou ou o que me vive ...
... me livre ... me livre ... me vive, deslize, deslivre, relivre...
uma presença inquieta e muda
me muda... muda... e me cresce
aquece, esquece e permanece
no misterio que envolve, guia e ajuda
eclode-me do imaginário o que ele promete
e do sonho vivo o encontro da realidade pura
a vida que de tanta vida e por amor merece
no espanto de beleza que admira se estremece
não sei desde quando
mas sei que enquanto ando
ouço esse soluço, este enigma e esse encanto
que explode em cores no mundo
mas que vem bem la do fundo
do desconhecido revelando-se enfim
não sei ainda, vivo o fato, o agora por enquanto
onde vou só me vivo mesmo quando vivo amando
mesmo seguindo rastros deste som de oceano
que ecoa num mistério profundo
e também é meu mais íntimo mundo
minha busca e meu enigma particular e sem fim...
Poesia concebida à base de uma improvisação melódica de inspiração diretamente vinculada às sensações despertadas pela canção "Gymnopedie Nº. 3" de Erik Satie, versão interpretada nas mãos do "escultor-de-vida-sonora" em Violoncelo, Hudson Lima. Dedico a poesia ao encanto da inspiração do músico-compositor que re-criou essa obra-prima do universo musical.
OBRIGADO
Uirá Felipe



